Reflexões e partilhas sobre Medicina Veterinária Integrativa
Eles não nos dizem onde dói
Artigo de opinião publicado n´O Setubalense a 28 de Setembro de 2026, no âmbito do Dia do Animal e do Médico Veterinário
Eles não conseguem explicar quando começaram a sentir-se diferentes, o que mudou, onde está o desconforto ou porque deixaram de fazer aquilo que sempre fizeram.
Mas nós aprendemos a ouvi-los. Aprendemos a reconhecer um olhar, uma postura, uma alteração no apetite, um silêncio onde antes havia entusiasmo. Muitas vezes, os primeiros sinais de que alguma coisa não está bem são quase imperceptíveis.
Ser Médica Veterinária é muito mais do que diagnosticar e tratar doenças. É conhecer. É observar. É fazer perguntas. É ouvir a família que vive diariamente com aquele animal e que, tantas vezes, é quem primeiro percebe que “ele não está bem”.
E é também perceber que não existem dois animais iguais. Mesmo perante o mesmo diagnóstico, cada animal tem a sua história, o seu corpo, a sua personalidade, a sua alimentação, o seu ambiente e a sua relação com as pessoas que dele cuidam.
A Medicina Veterinária Integrativa vê o animal como um todo, conjugando a Medicina Veterinária convencional com outras abordagens de diagnóstico e tratamento. Integrar não significa escolher uma medicina em detrimento de outra. Significa utilizar todas as ferramentas que possam ser úteis. Continuamos a recorrer aos meios de diagnóstico da Medicina Veterinária convencional — análises, imagiologia, citologia, biópsias e outros exames — complementando-os com uma avaliação integrativa, que procura compreender o animal para além da doença.
Muitas vezes, começamos pela alimentação, e integramos medicação, suplementos, acupunctura, fitoterapia, reabilitação, medicina regenerativa ou cirurgia, de acordo com as necessidades de cada animal.
Porque tratar não é apenas combater uma doença. É procurar perceber o que aquele corpo está a tentar dizer. É aliviar a dor, recuperar função, prevenir problemas e, tantas vezes, ajudar um animal a voltar a ser simplesmente… ele próprio.
E há ainda quem está do outro lado da trela ou da caixa de transporte. Porque quando um animal adoece, a família também sofre. Quando recupera, a família respira de alívio. E quando envelhece, todos aprendemos uma nova forma de cuidar.
Neste Dia do Médico Veterinário e do Animal, celebro uma profissão que nos ensina todos os dias a olhar, escutar e cuidar de quem não fala a nossa língua, mas que tantas vezes consegue dizer tudo sem precisar de uma única palavra.
Porque cuidar de um animal é, inevitavelmente, cuidar do vínculo que nos une a ele.
Catarina Melon
Médica Veterinária
Directora Clínica de Vet&etc – Medicina Veterinária Integrativa
